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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

 

CO² - COMPRIMIDOS PARA COMPREENSÃO

Artefatos, artifícios para compreender a realidade

Lima – fevereiro de 2026

 

Nesse “comprimido” falaremos sobre os artefatos, artifícios utilizados para a compreensão da realidade.

A palavra artefato tem origem no latim arte factum, que significa "feito com arte", "feito com habilidade" ou "artifício". A construção deriva de arte (ablativo de ars, significando habilidade ou arte) + factum (particípio passado de fazer, significando "coisa feita"). Refere-se a qualquer objeto produzido ou modificado por intervenção humana.

Como a realidade é complexa demais, montamos artifícios, colocamos uma ordem, e assim poderemos manipulá-la.

Toda sugestão epistemológica (de como entender/conhecer a realidade) implica uma suposição sobre o que é realidade.

Utilizamos artifícios para reduzir a realidade a seus formatos lineares, sequenciais, algorítmicos, entrando nos jogos de linguagens.

 

Ver nunca é ver tudo, mas seletivamente, tanto porque o olho é equipamento limitado, como tudo na natureza evolucionária, quanto porque, sendo a realidade um todo multifacetado, precisamos “dividir para imperar”. Parece tratar-se de efeito evolucionário que moldou o olho do jeito a encontrar saídas em face de realidades caóticas, complexas, cujo manejo exige abordagem reduzida, simplificada. Esta abordagem aproximativa combina pretensões de aprofundamento, quando, partindo a realidade em partes cada vez menores, postula lidar com traços estruturais, não apenas eventuais (DEMO, 2017).

 

 

Podemos ilustrar essa posição, nas questões de saúde, usando um hemograma, como um procedimento analítico. Analisar significa decompor a realidade em partes menores lógica e experimentalmente, até se chegar ao fundo dela.

Transformamos, o sangue coletado, em uma sequência de partes mensuráveis, com um intervalo de referência, para então compreender a situação daquele objeto (sangue) analisado. Assim podemos inferir a condição de que se encontra a saúde de um indivíduo.

 

Se pensarmos em computação e mais especificamente em Inteligência Artificial (I.A.), os dados de linguagens fluem em ordem sequencial, podendo ser transformados em grandes modelos de linguagem (LLMs em inglês), esse artificio foi crucial para o desenvolvimento da I. A. Isso levou a IA a se afastar dos átomos e se aproximar dos Bits, novos níveis de abstração, ou seja, cada vez mais com pretensões generalizantes, se desmaterializando e proporcionando um desenvolvimento acelerado da tecnologia (LIMA, 2025).

Para Demo (2017):

 

A realidade discreta – divisível em partes cada vez menores, ajuntável sequencialmente, daqui para ali e dali para aqui – é fundamental para a manipulação, como ocorre com tecnologias.

Produtos digitais são todos discretos, como uma imagem desmontável em o que permite intervir nela, mudar, esticar, comprimir. O preço disso é que o todo é apenas a soma das partes. Realidades discretas apenas “somam”, não se multiplicam, exponencializam, emergem, saltam. Um avião é um todo discreto (Demo, 2002) – pode ser montado e desmontado, tendo sempre o mesmo resultado, como numa equação formal – os lados são permutáveis.

 

Entrando nas regras das linguagens, toda língua tem por trás uma gramática, porque entendimento supõe relações ordenadas.

Para os artifícios e artefatos o campo de atuação é na sintaxe, sequencial e manipulável.

Ficando a semântica em segundo plano, pois tem uma complexidade de difícil entendimento.

Assim o jogo de linguagem nos leva a outro patamar, onde o que está em questão é o desempenho, ou seja, a melhor relação input/output. [...] Aqui intervêm as técnicas. Elas são inicialmente próteses de órgãos ou de sistemas fisiológicos humanos que têm por função receber dados ou agir sobre o contexto (LYOTARD, 2009).

Dessa forma, a humanidade foi criando artifícios e artefatos (tecnologia) para compreensão da realidade, sendo sempre uma aproximação uma seleção de visão, por isso mesmo sem fim.

Pois como diz Borges; "Aceitamos a realidade tão prontamente - talvez porque sentimos que nada é real."

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