REGIME ACADÊMICO POR CREDITO: solução ou problema?
Sérgio
Ferraz de Lima – abril de 2006.
Palavras chaves: regime acadêmico,
seriado, créditos, disciplina, integralização, currículo, diretrizes
curriculares.
Notícia da Folha
de São Paulo (18.04.06) “Em crise, faculdades de SP já cortam cursos, problemas
financeiros provocam fechamento de turmas, atraso nos salários e demissão de
professores” [...] “A crise das faculdades particulares, antes presente
apenas em estudos e análises, já afeta os alunos. Só na cidade de São Paulo, ao
menos sete instituições fecharam cursos, atrasaram salários de professores ou
tiveram aulas prejudicadas devido a greves do ano passado até agora. Uma delas
fechou as portas sem avisar os alunos”.
Vivemos uma
época de mudança na educação superior privada brasileira, que em alguns
aspectos possui características de crise.
O aumento da
concorrência, um ordenamento jurídico em transição, baixo crescimento da
economia, modelos defasados, são fatores de instabilidade que geram turbulências
no ambiente e dificultam a gestão dos sistemas educacionais.
Somado a esses
fatos, a sociedade verifica que os resultados não são os esperados,
principalmente, quanto a garantir
aprendizagem mais adequada dos alunos.
O problema tem várias
faces, a mais aparente está na falta de um ambiente acadêmico mais “amigável”, que
atraia e proporcione a comunidade acadêmica condições para o desenvolvimento de
uma educação com qualidade, com maior agilidade e mobilidade, tanto interna
como externamente.
Uma forma de
enfrentar essas dificuldades, pelo menos no que diz respeito à organização de
um ambiente acadêmico, vem se desenhando como sendo a migração do modelo seriado, semestral ou anual[1],
para o sistema de créditos[2],
e suas variações.
Essa mudança tem
como base a transição do modelo
estático para um paradigma dinâmico.
A utilização da
tecnologia da informação, a flexibilização de currículos, desburocratização,
adequação a novas clientelas e a possibilidade do desenvolvimento de redes de
instituições, criaria condições para enfrentar as novas demandas.
A saída do
modelo seriado, como também, do modelo de créditos utilizados em décadas
passadas, para um modelo de créditos com forte suporte na tecnologia da
informação – TI, proporcionaria maior flexibilidade para atrair e manter alunos
nas instituições de ensino superior - IES.
Esse é o caminho
indicado por Wolynec (2006) quando propõem vantagens, tanto no âmbito acadêmico
como financeiro, desse modelo:
Na maioria das instituições, tanto a estrutura
curricular dos cursos quanto o método pedagógico utilizado precisam ser
revistos, visando a diminuição de custos e o aumento da satisfação do aluno.
Não há mais espaço para cursos seriados, estanques. A simples mudança de cursos
seriados para um sistema de créditos, que possibilita uma formação mais
flexível e também a matrícula por disciplina, em vez de por serie, ou por
módulo, já diminui a inadimplência. Em situações de dificuldades financeiras o
aluno faz menos disciplinas por semestre, em vez de desistir do curso.
A União
Européia, também, vem trabalhando nesse sentido, com o objetivo de uma melhor
mobilidade dos alunos na comunidade como um todo. Para que possibilite essa
mobilidade está sendo implantado o sistema de transferência de créditos, que se
deu o nome de ECTS (European Credit Transfer System), traduzindo o volume de
trabalho anual do estudante em créditos.
Com a Declaração
de Bolonha, ratificada em 1999 por 29 ministros da Educação de diferentes
países europeus, concordou-se na necessidade de facilitar a mobilidade dos
estudantes, quer para fins acadêmicos quer para fins profissionais, com a
adoção generalizada do ECTS.
No caso das IES
particulares no Brasil, a problemática de fundo a ser enfrentada, trata-se,
sobretudo de oferecer oportunidade aos alunos
de melhoria do seu desempenho acadêmico e condições às Instituições de Ensino Superior de promoverem um melhor
aproveitamento dos seus recursos, tomando-se como apoio dois componentes
interligados: aprimoramento das condições de aprendizagem e fomento da autonomia
acadêmica.
O que notamos,
hoje, é um esforço muito grande, por parte das IES, para atrair candidatos a
alunos. Mas, como o modelo atual é pouco flexível, abre-se mão de uma parcela desses
estudantes, ou por falta de matriculados na série, e, cujo o reflexo será a não
abertura da turma, ou pelos hiatos que se formam quando a seqüência do curso é
interrompida, por um vestibular mal sucedido. A não abertura daquela série,
naquele semestre, dificulta a vida dos alunos tanto em regime de dependência ou
em casos de transferências, a sua alocação em uma série compatível com os
estudos já realizados.
Além disso, a
interdisciplinaridade, muito comentada, mas pouco praticada, torna-se no mínimo
muito difícil, uma vez que aos alunos engessados na série não é possibilitado
cursar outras matérias do seu curso ou em outros cursos da instituição ou fora
dela, ficando restrito as disciplinas ofertadas na série onde está alocado. Dessa
maneira perde-se o que poderia ser um fator de enriquecimento tanto do currículo
quanto do processo de aprendizagem do aluno.
Uma instituição
que queira afirmar-se hoje como instituição de ensino superior de qualidade não
poderá ignorar a importância da competitividade dentro e fora da comunidade, na
qual está inserida. Portanto, nesse texto, pretende-se argumentar a favor da
implantação do regime acadêmico por credito, possibilitando dessa maneira uma
nova fase na atração e manutenção dos alunos.
Para isso,
utilizar-se-á da descrição de situações – problemas, que seriam de difícil
solução pelo sistema seriado, confrontando-se com soluções oferecidas pelo
sistema de créditos.
1. PROBLEMAS E / OU SOLUÇÕES
Partiremos de
problemas existentes para então buscarmos soluções baseadas na utilização do
regime acadêmico por credito, que possui princípios diferentes do sistema
seriado.
i) Cursos que não atingem certo número
de candidatos e/ou matriculado não são ofertados.
Com a pouca
demanda as IES não abrem turmas, para piorar o quadro as estatísticas do MEC/ INEP
mostram um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de vagas, como noticiou a
Folha de São Paulo de 18 de abril de 2006.
A Anglo Latino, na
Aclimação, fechou turmas de jornalismo, relações públicas e rádio e TV. Os
alunos foram transferidos para publicidade.[...] Uma das regras básicas de mercado explica a dificuldade do setor
privado: a oferta está maior do que a demanda. O Censo da Educação Superior
2004 (último disponível) aponta que o número de ingressantes nas instituições
particulares cresceu 2% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o número
de vagas oferecidas aumentou 16,8%. Assim, cresceu o número de vagas ociosas,
que chegou a 49,5 % do total; em 1998, era de 20,2 %.
Com a
concorrência maior a dificuldade de atrair alunos aumenta, além desse
obstáculo, quando o candidato faz o vestibular e obtém aprovação, aparece mais
uma dificuldade, pois a IES poderá cancelar o curso por falta de número mínimo
de alunos para a abertura da turma.
Não é necessário
dizer que essa atitude desgasta a imagem da Instituição, pois a expectativa do
candidato e de seus familiares é frustrada.
O problema tem
origem no regime acadêmico seriado, onde só é possível receber alunos que
possam ser organizados para estudarem no currículo em que as atividades e
disciplinas teóricas ou práticas estão distribuídos, isto é, em blocos
solidários e realizados em determinado período de tempo chamado de série. Como as
disciplinas não podem ser cursadas isoladamente, ou temos alunos suficientes
para abrir a série, que possam cursar aquelas disciplinas, ou a turma não se
viabilizará, portanto, teremos que abrir mão desse aluno.
Ao contrário, com
o sistema de créditos, as alternativas serão maiores, em virtude da
flexibilidade do modelo, poderemos alocar esses alunos em disciplinas do curso
que não possuem pré – requisitos e estão sendo ofertadas, seja no curso em
questão ou outro curso da instituição. A principal mudança ou ganho é que a unidade de gestão passa a ser o aluno e
não mais a série.
ii) Um aluno em regime de dependência,
com mais de duas disciplinas não terá progressão, para a série seguinte.
Esses casos são
de difícil solução pelo sistema seriado, mesmo porque em algumas situações a
série não é ofertada por falta de alunos matriculados (vide situação I). Pelas
normas regimentais o aluno não pode ir para série seguinte, mas a instituição
não oferece a série correspondente, o que ocorre, principalmente, no sistema
seriado semestral. O aluno fica prejudicado por uma situação que é de
responsabilidade da instituição, a oferta da série.
Mesmo que seja
ofertada a série, o aluno irá cursar as dependências, não podendo cursar outras
disciplinas para aproveitamento de todo o horário disponível.
No caso do
sistema de créditos, o aluno poderá montar a sua grade aproveitando o máximo
dos horários disponíveis no curso e na instituição (caso de disciplinas feitas
em outro curso), não ficando amarrado a série.
O foco passa a
ser as disciplinas de todos os cursos da instituição e não somente as da série
do seu curso.
iii) Transferências[3]:
Alunos transferidos, têm problemas para serem colocados na série correspondente
a que estariam na sua instituição de origem, ou por não haver compatibilidade
curricular ou por falta de vaga na série.
Essa situação
aparece principalmente pelas características do sistema seriado. Com a necessidade de alocar o aluno em uma série, e para
que isso ocorra, temos que ter uma coincidência da maioria das disciplinas ou
matérias para que essa alocação aconteça. Como isso, na maioria das vezes não
se dá dessa forma, criam-se obstáculos de tal ordem que os alunos acabam
desistindo do processo de transferência. Além disso, o ordenamento jurídico
fala em dar equivalência por disciplina ou matéria e não por série.
Como são os tratamentos básicos
contidos na Resolução CFE / CES 12/84:
“a dispensa de cursar matérias ou
disciplinas já estudadas, apenas em estabelecimento diferente, valendo-se do
reconhecimento automático, na instituição de ensino superior para a qual o
aluno transferiu o seu vínculo, de todas as matérias componentes do currículo
mínimo de qualquer curso superior estudadas com aproveitamento em instituição
de origem, autorizada, atribuindo-se-lhe créditos, notas, conceito e carga
horária obtidos no estabelecimento de procedência, sabendo-se que tal
reconhecimento implica a dispensa de qualquer adaptação e de suplementação de
carga horária.”
No sistema por
credito a instituição pode alocar os alunos com maior agilidade, uma vez que
não está impedida de montar a grade com as adaptações e aproveitando a
totalidade dos horários disponíveis, facilitando a vida do aluno.
IV) Calculo das vagas: o calculo das
vagas disponíveis para transferências internas e externas, é sempre um
problema. O processo fica mais complicado ainda no sistema seriado. Nesse
sistema a conta é feita por série de entradas, e não por tempo médio de
conclusão do curso. No sistema por credito ficaria facilitado esse cálculo, uma
vez que é utilizado, horas e créditos para a integralização do curso.
V) Alunos com dificuldade financeira,
que só podem se matricular na série.
No sistema
seriado a matrícula somente é possível em todas as disciplinas da série,
exceção feita às disciplinas no regime de dependência.
No caso do
sistema por credito o aluno, nessa condição, poderia se matricular em algumas
disciplinas que caibam no seu orçamento, resolvendo, dessa forma, em
parte, o problema de inadimplência e da
desistência.
VI)
Como exemplo, podemos imaginar uma situação no vestibular do meio de ano, junho
ou julho. No vestibular do meio de ano, historicamente temos uma demanda menor,
e em algumas das vezes não conseguimos ter candidatos suficientes que
possibilitem a abertura da turma. Se olharmos esse problema por outro ângulo,
verificamos que o principal obstáculo está no sistema seriado, pois trabalhamos
com a unidade “série ou turma”. Se
aplicarmos o princípio do sistema
por credito, a unidade passa a ser “o
aluno”, isso permite uma maior flexibilidade e poderemos aceitar desde 1
(um) aluno até o número que as vagas suportem, pois, nesse caso a matricula
poderia ser feita nas disciplinas ofertadas naquele semestre que não exigem pré-requisito.
Além dessas
vantagens imediatas, o sistema de créditos possibilita uma melhor adequação
para uma futura implantação dos ciclos básicos, propostos pela reforma
universitária que tramita no Congresso.
2. CONCLUSÃO
A implantação do
sistema por créditos não resolve todos os problemas, porém, proporciona um
leque de soluções que seriam impossíveis de conseguir com o sistema seriado.
A vantagem é que
o sistema de credito proporciona uma maior agilidade para absorver mudanças e
turbulências vindas do ambiente e possibilita um desenho curricular que
responde pertinentemente as demandas da sociedade contemporânea.
[1]
Sistema seriado - entendido como a organização de
um currículo em que as atividades e disciplinas teóricas ou práticas são
distribuídas em blocos solidários, realizados num determinado período de tempo
chamado de série (INEP, 2006),
[2]
Sistema de créditos – entendido como
a organização de um currículo em que as disciplinas teóricas ou práticas são
independentes, embora organicamente relacionadas (algumas podem se constituir
em pré-requisitos de outras), cada uma correspondendo a um determinado número
de créditos ou horas-aula semanal que, quando somados, deverão integralizar o
número de créditos exigidos para a conclusão do curso. Usualmente, os sistemas
de créditos oferecem mais flexibilidade na formação, compartilhando disciplinas
com vários cursos e facilitando a transferência do aluno de um curso para outro
(INEP, 2006).
[3]
Transferência: ato pelo qual o aluno desligando-se do estabelecimento de
origem,
se desloca para outra instituição sem perder a sua
condição ou status de “aluno” adquirido
quando da matrícula (Parecer nº 365/2003 CES/CNE).
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